Xixi do Tunga

Você vai a uma exposição na Galeria Millan e se depara com desenhos e trabalhos do artista Tunga. Os desenhos pendurados pelas paredes são interessantes: mulheres e homens explodem em fogo, fezes e em urina pelos pescoços e orifícios. Ao lado dos desenhos, caixas de madeira com vidros contendo a urina do artista.

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A exposição da urina do artista traz no mínimo um desconforto. É arte? É. Por quê? Porque questiona a arte. “Mijei na garrafa, pus na galeria, logo meu mijo é arte já que eu sou artista”.

O que Tunga faz com este trabalho é um questionamento do fetichismo relacionado à obra de arte: arte conceitual. Lembremos que, antes do Renascimento, arte era Música, Filosofia, Matemática… Arte também estava relacionada aos homens e à aristocracia. Trabalhos manuais, como pintura e escultura, eram considerados coisa de artesão.

Com o Renascimento e a ascensão da burguesia, precisava-se de uma arte que fosse da nova classe, e não mais da aristocracia. Pintores e escultores ganharam patrocínios de Igrejas e novos ricos, que erguiam seus palacetes e queriam adorná-los e enfeitá-los. Artistas como Leonardo da Vinci começavam a desconfigurar o caráter figurativo da pintura, levando para as telas expressões que antes eram exclusivas de afrescos e decorações.

A burguesia, encantada com a nova arte e com a possibilidade de comprá-la, acabou patrocinando e consolidando no Ocidente o que até hoje chamamos de arte.

A aura criada então em torno do objeto de arte e do artista pouco foi questionada nos séculos XVII, XVIII e XIX. Só no século XX iniciou-e o questionamento da arte em si. Ver a arte como arte foi a possibilidade de iniciar seu questionamento. A pintura poderia ser mais do que a figuração. A escultura, idem. A música acompanhava a pintura e se desconstruía para ser reconstruída, e passava a agregar elementos desde a década de 1920 para transformar-se até em música eletrônica.

Por fim, o fetichismo em relação à obra de arte, firme e sólido com a consolidação global do capitalismo, pouco mudava. Qualquer produção artística, por mais conceitual e questionadora sobre o próprio valor da arte, alcançava cifras estratosférias nos leilões.

Os artistas tentaram mudar essa realidade transformando alguns de seus trabalhos em performances. Como você vai comprar uma performance para botar em casa? Não dava. Ainda assim, museus, galerias e até ricos compradores de arte passaram a pagar pela realização de uma performance.

Continuando este tipo de questionamento, Tunga, expondo sua urina numa garrafa, nos faz de novo pensar: a aura em torno do artista e de seu objeto de arte é realmente mágica? Ou estamos apenas reafirmando que arte é considerada Arte quando adquire algumas conceitos estabelecidos não por nós, mas por instituições que estão no direito de dizer o que é e o que não é arte?

Você não está perdendo o direito de comprar o objeto de Tunga. O valor do trabalho é exatamente este questionamento, e isso por si já é Arte, longe de ser belo ou decorativo. Mas é aquela história: entender um trabalho como esse requer algum envolvimento com a história da arte. Por isso, se você não entende arte, não se preocupe. Arte pode ser vista como hobby.

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6 Respostas para “Xixi do Tunga

  1. Na década de 1960 Piero Manzoni enlatou a própria merda e a vendeu pelo preço do peso do ouro

  2. Anderson Barreto

    Arte é percepção, emoção e razão.
    Se para o entendimento da obra de um artista, for necessário longas linhas de explicação, este artista deveria ser escritor.
    A obra deve falar por si.
    se uma obra não fala ela esta morta, ou não é arte.

  3. Oi, Anderson. Concordo com sua visão, com a observação de que ela é uma visão de arte. A arte conceitual já não entende arte desta forma. Tanto que, na opinião dos próprios artistas conceituais, uma obra de arte nem necessariamente precisa ser materializada. Caso ela tenha uma boa descrição de seu conceito ou conteúdo, isso já basta para que ela exista.

  4. Arte não é apenas uma boa idéia, Publicidade sim.
    Arte conceitual é a desculpa de muitos artista que são incapazes de expressar suas idéias em uma obra original de talento estético e histórico relevante.

  5. Concordo somente com a ressalva de que essa é uma visão.

  6. Concordo com o Anderson Barreto em gênero número e grau quem não sabe age assim.

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