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Fotografia X Pintura

O nascimento da Fotografia como a conhecemos (1826) trouxe a primeira crise à Pintura. A arte formal, que tinha algum papel embutido de trazer à tona o registro e a representação da realidade, perdia espaço para a facilidade e a qualificação técnica da Fotografia.

Porém, considera-se que espanhóis como Goya (século XVII), Velásquez (século XVII) e El Greco (século XVI) fizeram a pintura evoluir e alcançar seu apogeu de tal forma que nem o surgimento da fotografia derrubou seu status de Arte. Pelo contrário: tirou totalmente de sua função a representação para que a pintura passasse a falar de si mesmo, nascendo assim as primeiras vanguardas modernas: Impressionismo, Expressionismo, Cubismo ou Surrealismo.

O que as vanguardas modernas tinham de comum era o fato de pararem de olhar para fora para poder olhar para o próprio mundo da pintura ao desenvolver um trabalho. O comprometimento com o real passava a ser muito menor, chegando ao mínimo em algums casos. Os temas podiam ser completamente abstratos e imaginários. A função não era mais nenhuma que não fosse expor o questionamento do artista sobre a sua própria arte e a sua escola.

Começava ai o desenvolvimento do mundo artístico mais fechado e autônomo em si, diferente do anterior: este precisava ainda manter alguma relação com a sociedade que representava. A arte passava a viver de si própria, iniciando há pouco mais de 100 anos sua adolescência artística, desenvolvendo-se em seu próprio campo, descomprometida com o restante, e a partir de então em função apenas de atender ao desejo de manifestação de seu criador nato: o artista.

Saturno devorando um filhos, pintada por Goya diretamente sobre um reboco de sua casa, assumindo total descompromisso com a materialização, a beleza e a portabilidade da arte.

Um trecho de Guernica, de Picasso. O Cubismo abria e desdobrava no plano figuras que tradicionalmente haviam tido apenas representações tradicionais.

A persistência da memória, de Salvador Dalí, um de seus mais famosos trabalhos, ilustravam o Surrealismo e a realidade fantástica que já haviam sido vistas em obras do holandês Hieronymous Bosch 400. Com Dalí, institucionaliva-se na Pintura o descompromisso com a figuração e o realismo.

Claude Monet também começava a dissecar os elementos formais da pintura (cor, pincelada, luz). Ainda mantinha, no todo, a figuração, mas já trazia a ideia de que não necessariamente a pintura iria reproduzir a paisagem ou o objeto que estivessem à sua frente.

O que é Arte Formalista?

A ascensão da sociedade burguesa como a conhecemos hoje se deu no Renascimento, época em que a pintura e a escultura viviam seu auge e foram, ao lado da Música e da Literatura, elevadas ao patamar de arte. Os artistas foram cada vez mais valorizados, suas obras passaram a ser comercializadas e nasceu o fetiche pela mercadoria concreta de seus trabalhos como o fetiche por qualquer mercadoria em si.

Os pintores foram aproximados das cortes e passaram a ter o papel de representar os nobres da melhor forma possível. Suas pinturas foram ousadas na medida em que aproveitavam para colocar seus pontos de vista sobre o mundo reforçando seu pensamento.

Ficheiro:Velazquez-Meninas.jpg

É por isso que os grandes pintores do período pós-Renascimento são não só os que pintaram os nobres, mas também os que desenvolveram na própria pintura oficial como em trabalhos paralelos seus estilos de representação do real e do imaginário.

O fetiche pela mercadoria aumentava e dava vazão ao fetiche pelo trabalho do artista. Nem mesmo era preciso se entender de arte – como ainda não é – para ter posse de uma obra. Diferente da Música, que requisitava a presença para ser apreciada,  ou da Filosofia, que necessita estudo e dedicação, a Pintura e a Escultura podem ser apreciadas e, antes de tudo, possuídas. E a posse é o desejo burguês.

O que aconteceu então? A Igreja, clássica patrocinadora da pintura e da escultura, perdia espaço para seus novos patrocinadores: os empresários, comerciantes, navegadores e a própria corte, que  entrava no hype principalmente da pintura. A partir de então, a pintura e a escultura foram fomentadas como nunca na história, e tiveram papel de destaque tão grande no mundo das artes que passaram a ser quase sinônimos de arte em si. Por isso, nos dias de hoje, quando revemos nosso passado histórico, a Pintura e a Escultura são entendidas como Arte Formalista. É o processo mais  formal de materialização da arte.

Isso rende aquela preguiça de entendimento da arte em si, que sempre imaginamos uma pintura de algo que não nos diz respeito… Ou, então, de que lugar de arte é no museu, já que estes são pura invenção burguesa e estão sempre cheios de pinturas. E esquecemos que a arte contemporânea, por exemplo, tem um de seus melhores locais para exibição nos cubos brancos (salas) das galerias. Mas até isso já está sendo questionado, como em breve veremos.